Os jovens que estão concluindo a educação básica e caminhando para a vida universitária nasceram no colapso climático. Sentem em suas comunidades e territórios os efeitos do aquecimento global, da falta ou abundância de chuva e do aumento do nível do mar, além de poluição do ar e desmatamento de biomas. Na pesquisa Adolescentes, Jovens e Mudanças Climáticas no Brasil, desenvolvida pelo Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI), 68,5% dos jovens do país relatam medo, ansiedade e insegurança em relação às mudanças climáticas.
Mas são também esses mesmos jovens que, no Brasil e na América Latina, propõem soluções para problemas ambientais a partir dos conhecimentos adquiridos na escola. Essa é a percepção de Eliade Lima, física, astrofísica e mentora do Solve for Tomorrow no Brasil, pela parceira técnica Cenpec.
Lima mentora projetos STEM de jovens que vivem tanto em contextos urbanos como rurais, e nota que existem diferenças na percepção climática e nas soluções propostas. Estudantes urbanos demonstram maior preocupação com temas mais gerais, como a reciclagem. Já os jovens de contextos rurais, por estarem mais em contato com a natureza, criam protótipos que conversam com os problemas relatados por suas comunidades.
“O jovem em contato com realidade rural tem pensamentos da mudança: ‘Eu sou capaz de mudar, sou agente transformador’. Esse é o pensamento que tem aflorado nos projetos do Solve for Tomorrow Brasil. No contexto rural, o jovem também consulta mais a comunidade. Perguntam aos mais velhos, às populações tradicionais: ‘Vocês permitem que a gente faça isso, vocês gostam, vocês aprovam?’ Essa é uma postura diferente do cientista tradicional, que geralmente já chega impondo, achando que sabe mais”, explica Lima.
Entre os temas mais recorrentes dos projetos STEM, a mentora percebe que a preocupação com o descarte de resíduos e substituições sustentáveis para materiais do cotidiano, como o plástico, são os que mais aparecem. Por exemplo, no projeto Mangoplast, finalista da edição do Solve for Tomorrow Paraguai, em 2024, os estudantes criaram um bioplástico a partir da semente de manga.
A crescente de projetos STEM relacionados ao meio ambiente não só sugere uma preocupação momentânea com o tema, mas sim uma mudança duradoura na perspectiva de futuro dos jovens. “Estes alunos levam resquícios, mesmo que não levem o projeto adiante. Levam linguagem, características de pesquisador, metodologias e, muitas vezes, o desejo por uma carreira científica. E o mais importante: a perspectiva de se tornar um cientista que leve de volta para sua comunidade uma maneira mais empática e significativa de desenvolver ciência junto com ela”, conclui Eliade.
Confira outros projetos finalistas e ganhadores do Solve for Tomorrow que olham para a temática de soluções ambientais:
Apyphore (Colmeia inteligente para extração de apitoxina) – Finalista do Solve for Tomorrow na Costa Rica em 2024: Abelhas são animais essenciais para a agricultura mundial, e seu número está em declínio. Para mitigar esse problema, os estudantes criaram uma colmeia inteligente com sensores e câmeras para monitoramento de abelhas, fornecendo dados em tempo real para garantir o bem-estar dos bichos e facilitar o manejo remoto pelos apicultores.
Rhizobium – Ganhador do Solve for Tomorrow no Peru em 2024: O grupo criou um fertilizante biológico como uma solução STEM sustentável na agricultura, principal atividade econômica local. A bactéria rhizobium, que vive no solo agrícola, é a alternativa para fertilizantes químicos desenvolvida pelos estudantes.
Bastet Haus – Finalista do Solve for Tomorrow na Argentina em 2024: O grupo de estudantes criou uma solução duplamente potente, que encara desafios de sustentabilidade e de falta de moradia. A partir de bitucas de cigarro, que são danosas ao meio ambiente, foi desenvolvido um tijolo sustentável e resistente que, pelo baixo custo, também pode ser usado para construir moradias populares.
Macafiltro (Uso de macaúba para remoção de agrotóxicos de água contaminada) – Finalista do Solve for Tomorrow no Brasil em 2022: o uso excessivo de agrotóxicos pode prejudicar os lençóis freáticos e a água que abastece as casas de zonas rurais. Pensando em como evitar seu uso, um grupo de estudantes usou o fruto da macaúba para produzir um filtro natural.
Smartbin – Ganhador do Solve for Tomorrow no Paraguai em 2024: Preocupados com o destino de resíduos produzidos na escola, três jovens desenvolveram um contêiner de resíduos inteligente, que converte dejetos orgânicos em biogás, uma fonte de energia limpa e renovável.