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Finalista 2022
Panamá
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#Meioambiente

Jovens panamenhos reaproveitam óleo de cozinha para a confecção de sabão e mobilizam comunidade em prol do meio ambiente

Ao desenvolverem o produto, jovens utilizaram não somente conteúdos de química, mas também de engenharia, ao construírem uma máquina automatizada para misturar as substâncias.

Professor(a)

Foto de Xenia Vigil
Xenia Vigil

Escolas

Centro Educativo Joaquín José Vallarino
Llano de Mariato, Panamá

Nome do projeto

Aceibon

Áreas STEM

Ciências, Engenharia

Reaproveitar o óleo de cozinha na confecção de sabão para limpeza buscando minimizar a poluição ambiental. Essa foi a proposta de três estudantes e uma professora do Centro Educativo Joaquín José Vallarino, localizado em Mariato, distrito em Veraguas, no Panamá. Com os mais diversos aromas e texturas – café, laranja, limão, aveia, por exemplo -, o sabão não apenas passou a ser utilizado pela escola, como a se tornar uma proposta de sustentabilidade financeira e ambiental na comunidade.

A iniciativa, que ganhou o nome de Aceibon, nasceu de uma proposta da professora de inglês Xenia Vigil, que tem parte de sua carga horária na escola dedicada à supervisão e tutoria de estudantes, acompanhando-os nos estudos e em seus projetos de vida. Ao receber a convocatória para participação no programa, Xenia decidiu apresentar a proposta à sua turma de 22 tutorados, com a qual se reúne em uma aula por semana. Engajadas com a iniciativa, duas estudantes, que também residem na escola, procuraram a professora interessadas em participar da proposta. Em parceria com mais um colega que decidiu se juntar ao projeto, o grupo deu início ao processo de Design Thinking, estimulado pelo Samsung Solve for Tomorrow.

“Eu não entendia nada de STEM. Não era minha área, mas tinha a segurança que juntos, contando com o apoio de outros professores, poderíamos aprender e desenvolver uma proposta”, explica Xenia. Além dos 40 minutos de encontro semanais em suas aulas regulares com os estudantes, a professora dedicou boa parte do seu tempo de planejamento na escola com o grupo. “E, quando eu chegava em casa, e os estudantes já estavam em casa ou no internato, nós seguíamos nos comunicando online”, complementa a docente, impressionada com a dedicação e envolvimento dos jovens no processo. Desde o início, os jovens ressaltaram que queriam desenvolver algo que beneficiasse a comunidade local e indicavam grande interesse em preservar o meio ambiente. A região, que é rica em recursos naturais e casa de praias paradisíacas, é também uma das mais afastadas e menos atendidas por recursos públicos.

Foi investigando o território e compartilhando ideias que o grupo chegou ao problema da poluição doméstica e sua contribuição para a poluição ambiental. Entre os problemas listados estava o descarte inadequado de óleo de cozinha:1,5L da substância contamina em média 6L de água. Descartado na pia, por exemplo, o óleo contamina diretamente os aquíferos, criando uma camada impermeabilizadora na água, impedindo a oxigenação e afetando diretamente o processo de fotossíntese e o desenvolvimento da fauna e flora local.

Foi então que a mãe de Xenia, ao ouvir da professora as preocupações do grupo sobre a questão, lembrou-se da confecção de sabão a partir do óleo. A docente então levou a ideia ao grupo que não apenas gostou da proposta, mas buscou qualificá-la, pensando em como melhorar sua composição para que o sabão pudesse ser usado de forma segura também para limpeza das mãos, principalmente por conta das questões de higiene pessoal que ganharam maior evidência com a pandemia de Covid-19.

O processo de ideação e posterior prototipagem envolveu consultas a diferentes fontes, estudando desde a composição dos sabonetes ao processo químico de saponificação. “Os primeiros testes foram um desastre”, brinca a professora, lembrando que foi preciso adequar a temperatura, depois garantir ventilação adequada, ajustando o tamanho do cilindro para mistura dos ingredientes. Com o sabão-base pronto, e o apoio da professora de química, deu-se início aos testes de segurança e qualidade, avaliando o pH e a formação de espuma, por exemplo.

E então, começaram a adicionar as diferentes fragrâncias e texturas, buscando melhorar a qualidade do produto, tornando-o mais interessante para consumo. “Nós testamos tudo o que vocês possam imaginar. Tivemos vários acertos, outros que não ficaram como imaginávamos. O de aveia e de café ficaram maravilhosos! Na lavagem de roupas são espetaculares, e são excelentes para lavagem de mãos”, celebra. Para cada aroma, textura ou corante utilizado, novos testes eram realizados. Com os parâmetros aprovados, os sabonetes passaram a ser utilizados nos lavatórios da escola e do internato, e para limpar tecidos – sem nenhum caso de alergia.

Inovações: misturador automatizado e escala no processo

Como o processo de saponificação exige uma etapa de mistura dos ingredientes e como os estudantes trabalhavam com grandes quantidades de óleo, foi ficando impossível misturar tudo à mão, com um cabo de vassoura. Com o apoio do zelador da escola e do jovem que entendia mais de engenharia no grupo, e ao avançarem nas etapas do Samsung Solve for Tomorrow, o grupo conseguiu comprar um motor de uma lavadora usada e construir um braço misturador automatizado que permitiu maior agilidade e escala ao processo. A máquina era ainda desmontável, podendo ser levada para diferentes espaços da escola. “Isso era uma necessidade, pois precisávamos acompanhar o processo de perto, aos finais de semana, no intervalo das aulas”, explica Xenia.

Na sequência, o grupo passou a desenvolver os sabonetes em formatos diferentes, utilizando formas de biscoito e a embrulhar os sabonetes em papel manilha biodegradável. “Depois, eles desenvolveram o logo, mas precisavam garantir que esse não fosse colocado em um adesivo ou impresso no papel gerando custos ambientais. Foi aí que tiveram a ideia do carimbo”, narra a docente.

A fim de suprir a demanda, e como o óleo coletado no refeitório da escola não era suficiente, os jovens saíram para o território, dando início a uma campanha simultânea de coleta da matéria-base e conscientização das pessoas. Xenia conta que ao se prepararem para sair à comunidade, acabaram encontrando um banner antigo do Solve for Tomorrow na escola. “E o cartaz de 2019 acabou virando nosso material de divulgação e diálogo com a comunidade”, indica.

Ganhos e possibilidades

Com o apoio da mentoria do programa, os jovens criaram ainda um plano de sustentabilidade do negócio. Quem doava óleo, ganhava um sabonete. Os demais eram utilizados na escola e a sobra era comercializada. “Eu os apoiei a fazer uma análise e precificar o produto, buscando que ele de fato possa se tornar um projeto sustentável”, explica a professora.

Para a docente, o projeto permitiu não somente que os jovens desenvolvessem novas habilidades, especialmente as socioemocionais, como comunicação, colaboração e resolução de problemas, mas a ela mesma desenvolver novas oportunidades de atuação como professora. “Tenho certeza que me tornei melhor como professora. Além de aprender um monte sobre ciências, química, física e engenharia, eu tive a oportunidade de conhecer melhor meus alunos, de pensar criativamente com eles, de escutá-los, de vencer desafios em parceria deles”, celebra. A ideia do grupo é dar sequência ao Aceibon, envolvendo novos estudantes e membros da comunidade. Com o apoio do programa, Xenia pretende buscar a testagem e conforme regulamentação oficial dos sabonetes para que possam, inclusive, ser utilizados para banho. 

Como finalistas do Solve for Tomorrow – e os primeiros da região – Xenia conta ainda que a escola ganhou maior capacidade de diálogo com as autoridades locais, focando na ampliação de recursos para a educação local e no país. Entre as preocupações dos docentes está a de ampliar as oportunidades para que os estudantes da província possam seguir estudando. “Eles moram muito longe e precisam de apoio para seguirem no ensino superior”, argumenta a docente. 

Foco na prática!

Veja as orientações da professora sobre como apoiar os estudantes no desenvolvimento do sabão a partir do óleo de cozinha usado

Empatia

Xenia estimula processos de escuta livre dos jovens, encorajando-os a compartilhar seus interesses e preocupações. Para ela, o projeto só fará sentido se partir de um interesse genuíno do grupo.

Definição

Para definir o problema, a professora acredita que é importante se aprofundar nele. Como sugestão, ela indica um trabalho de pesquisa compartilhado em que cada jovem traga dados complementares sobre a questão identificada para discussão no coletivo.

Ideação

Para o processo de ideação, Xenia acredita na importância do diálogo coletivo, justificando, inclusive, a importância de dialogar com outras pessoas, para além do grupo, sobre o problema, trazendo assim, novos olhares e possibilidades de solução. Para a docente, a solução não nasce pronta, ela é construída ao longo do processo, no diálogo do grupo e do grupo com aqueles apoiadores que encontram no caminho.

Protótipo

Xenia indica a importância da tentativa e erro, assumindo a testagem como fundamental para a compreensão da solução proposta. Ela explica que é na tentativa, e no monitoramento da solução, que surgem as alternativas. Para tanto, a professora encoraja que o grupo mantenha um diário de registros, em que todos os parâmetros acordados devam ser anotados por um responsável por período e discutidos em grupo.

Teste

Para a professora, o diálogo com a comunidade é fundamental. E, no caso do Aceibon, retornar a solução aos que participaram e se engajaram com ela foi um compromisso importante dos estudantes para tornar a comunidade copartícipe do projeto, ampliando suas chances de sucesso e sustentabilidade.