La Junta, zona rural de San Juan del Cesar, na Colômbia, é uma área afastada dos grandes centros comerciais. Por isso, mesmo quando os agricultores locais têm boas colheitas, muitos não conseguem o lucro esperado, pois não têm como pagar os custos de combustível para viajar e vender seus produtos. Observando essa realidade, três jovens perceberam que a resposta para esse problema estava bem diante dos seus olhos: nos cactos.
Essa planta típica de regiões áridas tem alto teor de compostos e é rica em açúcar, o que permite transformá-la em álcool. Assim, ela pode ser convertida em biocombustível e abastecer veículos. A criação, chamada “Biocombustible Juntero”, recebeu menção honrosa no Solve for Tomorrow Colômbia, em 2024.
Os jovens seguiram um processo semelhante ao da produção do etanol, combustível comum em diversos países da América Latina como alternativa à gasolina. A escolha pelos cactos se deu por serem abundantes em La Junta, além de poderem ser colhidos sem custos. “Na verdade, é uma planta considerada como praga, pois não há controle de sua expansão. Agora, damos a ela um propósito com grande benefício”, explica a professora mediadora, Stefany Rodriguez, que é engenheira de Minas e docente de Matemática.
Participaram dois estudantes do 11º ano e uma do 10º, os anos finais da escolaridade obrigatória. Cada um ficou responsável por uma etapa: José José Oñate fez o protótipo, Estefany Montero cuidou da pesquisa e da organização do problema, enquanto Amalfi Sara focou na validação, análises com especialistas e entrevistas.
A ideia era criar uma solução acessível e sustentável especialmente para os transportadores e agricultores da comunidade. “Víamos essa dificuldade em nossas famílias. É uma comunidade que limita seu desenvolvimento diariamente por conta dos altos custos de deslocamento e pela dificuldade de acesso a combustível”, relata Rodriguez.
Segundo ela, alguns familiares dos estudantes perdiam parte da produção agrícola por não conseguirem levá-la a mercados mais distantes. “Pensamos: como podemos transformar essa realidade? Não apenas aliviar essa carga para a comunidade, mas também mostrar que da zona rural como a nossa é possível fazer a diferença”, lembra a professora.

A aprendizagem começa com a professora
A educadora também é natural de San Juan del Cesar, mas da zona urbana. Trabalhar na área rural de La Junta foi um desafio, especialmente por conta da falta de acesso à internet. “Tentamos aproveitar essa limitação e buscar outras estratégias com nossos estudantes”, afirma. Uma dessas estratégias foi justamente propor a Aprendizagem Baseada em Projetos. Assim, ao ver um anúncio do Solve for Tomorrow na internet, decidiu inscrever seus estudantes. Ela orientou cerca de 30 projetos, dos quais três chegaram à final.
Antes, a professora não tinha experiência com Design Thinking, mas aprendeu ao longo do programa, por meio de formações e mentorias. Uma das práticas implementadas foi a escuta ativa do público-alvo desde a etapa de Empatia até os Testes. “Saímos a campo, fizemos entrevistas e a cada avanço mostrávamos para os motoristas”, conta. Cerca de dez agricultores foram entrevistados e a maioria demonstrou interesse em usar o biocombustível.
Com as pesquisas concluídas, a equipe desenvolveu um laboratório móvel de biorrefinaria para processar a biomassa das plantas do deserto em fonte de energia renovável. Após o processamento dos cactos cultivados, a fermentação foi feita com microorganismos locais adaptados às condições desérticas da zona rural. Em seguida, o biocombustível foi destilado.

O futuro das nossas comunidades rurais está em buscar alternativas locais, sustentáveis e acessíveis, defende.
Produzindo energia renovável
A equipe também utilizou um biorreator, que facilita o crescimento de microorganismos responsáveis pela fermentação. Além do liquidificador da professora, todos os materiais foram reutilizados de objetos que já tinham em casa, como recipientes de plástico, vidro e potes. Para medir os resultados, foi necessário adquirir um medidor de pH, instrumento eletroanalítico que avalia o nível de acidez de uma solução.
Agora, a equipe pretende continuar com os testes em uma motocicleta, principal meio de transporte da região. “Sinto que foi uma aprendizagem muito importante para os estudantes sobre como contribuir com o desenvolvimento sustentável”, comenta a educadora. Rodriguez conta que o grupo refletiu sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas ao desenvolver o projeto. Inicialmente focaram em energia renovável, limpa e acessível, depois notaram que também estavam promovendo produção e consumo responsáveis, ao reutilizarem resíduos orgânicos. Com isso, reduzem a geração de lixo e promovem um modelo de economia circular, baseado em compartilhar, reutilizar, consertar e reciclar materiais sempre que possível para gerar valor agregado. “Com criatividade, encontramos soluções para vários desafios”, destaca.
Ela também observa que a experiência motivou os jovens a se expressarem mais, já que no início eram muito tímidos. “Aos professores que desejam iniciar um projeto assim, diria que é importante viver intensamente cada etapa: empatia, ideação, prototipagem – e lembrar que toda ideia conta”, recomenda.