Há gerações, as quebradeiras de coco babaçu do Maranhão, nordeste brasileiro, trabalham com métodos artesanais para extrair a amêndoa babaçu e desenvolver produtos como óleo, farinha e sabão. Jovens estudantes da família de algumas dessas quebradeiras acompanham este processo há muito tempo, e se perguntaram: como otimizar o processo de secagem da fruta e aumentar a diversidade de venda dessas mulheres, que muitas vezes são responsáveis pelo sustento de suas famílias?
Nasceu assim o projeto BabaçuTech, vencedor do Solve for Tomorrow Brasil. O grupo de estudantes do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA) – Unidade Plena Itaqui Bacanga, em São Luís (MA), desenvolveu um forno solar automatizado que ajuda a secar o mesocarpo, parte carnuda do coco babaçu, que serve de matéria-prima para fazer uma farinha com diversos fins culinários.
“O projeto nasce de uma dor e de uma oportunidade. Se você viaja pelas estradas do interior do Maranhão, você vê o mesocarpo do coco babaçu secando na beira de estradas durante dias, num processo longo e que pode dar muito errado se chover. Dois dos jovens, que têm familiares quebradeiras de coco, viram aquilo e pensaram em como otimizar este processo”, explica o professor mediador Felipe Borges, que leciona robótica e coordena o FabLab, espaço de inovação STEM (acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) dentro da escola.
A ideia do forno solar foi a primeira que teve o grupo de estudantes do terceiro ano do ensino médio técnico, o último da escolaridade obrigatória. Os conhecimentos vieram diretamente do currículo do Instituto, que trabalha as competências de engenharia, elétrica e robótica, e o trabalho foi dividido entre o grupo: enquanto as jovens se concentraram na arquitetura do forno, o único rapaz da equipe trabalhou na automação do protótipo.
Ouvindo as quebradeiras para criar o forno
A metodologia Design Thinking guiou todas as etapas do projeto BabaçuTech, e a escuta qualificada foi o pontapé inicial. Os estudantes tiveram a oportunidade de conversar com uma liderança quebradeira de coco, que contou sobre as dificuldades de secagem do mesocarpo. Para se transformar em farinha, esta parte precisa permanecer de três a quatro dias ao sol, em um processo que, além de insalubre, pode ser interrompido pela chuva, comprometendo a produção.
“Como o problema era o da secagem, a gente acabou focando mesmo no forno solar, que era uma ideia que podia otimizar o trabalho das quebradeiras e ser feito com materiais simples e baratos”, relembra o educador. “A partir da ideia inicial, fomos pensando em várias possibilidades. De como garantir uma construção fácil, como fazer a secagem mais rápida, e como automatizar o processo”.
A primeira versão do forno consistia em uma caixa de papelão forrada com lâminas de alumínio para captar a luz do sol. Ela foi levada até a Cooperativa Mista de Agricultura Familiar e do Extrativismo do Babaçu do Vale do Itapecuru (COMAVE) e a Associação das Quebradeiras de Coco para uma montagem em conjunto, para entender o que funcionava ou não na ideia inicial. Juntos, eles descobriram que o forno diminuía o tempo de secagem de quatro dias para quatro horas.
Durante a mentoria do programa Solve for Tomorrow, os estudantes foram lembrados de que deveriam considerar a sazonalidade do Maranhão, que conta com seis meses de soalheira e seis meses de chuva. Isso levou a equipe a construir um protótipo híbrido: ele funciona tanto à base de luz solar, mas também tem um versão fechada com barro, utilizando as cascas de coco como biocombustível.
Por fim, era importante que as quebradeiras não precisassem ficar perto do forno esperando as sementes secarem. “Instalamos um sensor de temperatura, que avisa quanto tempo demora a secagem do mesocarpo”, explica Borges. “Como a maioria das associações de quebradeiras tem internet, criamos um aplicativo com base nesse sensor que avisa no celular quando o mesocarpo está seco. Ainda colocamos um sensor que alerta a retirada do forno de áreas ao ar livre com previsão de chuva”.
Pé na estrada para uma nova testagem
Com o forno híbrido finalizado e automatizado, foi a hora de partir para os assentamentos das quebradeiras e testar os produtos. Os jovens e o professor percorreram centenas de quilômetros no interior do Estado, visitando quebradeiras em Anajatuba, Itapecuru Mirim e Chapadinha e mostrando como construir e utilizar o forno.
Esse foi um dos grandes diferenciais do projeto, né? O que a gente faz em laboratório é a inovação, mas se ela não sair dos muros da escola, se ela não mudar a realidade das pessoas que precisam, ela não alcançará seu objetivo principal, destaca o docente.
“E aí acredito que alcançar essas quebradeiras, trabalhar em parceria com elas, receber os feedbacks, escutar, fazer as melhorias com base no que elas precisavam, foi o grande diferencial do BabaçuTech”, complementa.
Para o professor, o encontro dessa geração com as quebradeiras mais experientes valeu muito a pena. “Tinha essa troca de experiência, todo mundo sentado no chão, fazendo oficina em cima de uma mesa improvisada, trocando ideias. Os alunos sendo protagonistas, muito interessados. Começando acanhados, e depois vendo que podem ajudar e trabalhar junto com as quebradeiras”, afirma. “Eles se tornaram muito mais protagonistas da história deles do que antes”.
Agora, o futuro do projeto BabaçuTech está na sua disseminação. O grupo está em contato com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para poder trabalhar com quebradeiras fora da região do Maranhão. Como nem sempre é possível fazer viagens, também estão produzindo uma cartilha e um curso online para que a montagem do fogão possa acontecer em outros assentamentos, impactando positivamente o trabalho das quebradeiras.
Veja mais sobre o projeto no vídeo abaixo: