Depois que um estudante observou que sua avó frequentemente esquecia se já havia tomado ou não suas doses diárias de medicamentos, decidiu criar uma solução aliando seus conhecimentos Mecatrônica aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 (Saúde e Bem-estar) e 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura). Foi assim que, junto a outros dois colegas e dois professores mediadores, criou o “Pharmakos”, um dispensador inteligente de medicamentos, que libera comprimidos nos horários e doses programadas, de acordo com a receita médica do paciente.
A iniciativa foi finalista e destaque no júri popular do Solve for Tomorrow no Brasil, em 2024. “A partir da ideia, eles foram pesquisar se já existia algo parecido no mercado e começaram a criar o desenho. Os três primeiros protótipos foram feitos de papelão, para testar o mecanismo. Depois, fizeram a estrutura em uma impressora 3D, para dar melhor precisão para os movimentos mecânicos. As partes eletrônicas e de programação vieram depois”, relembra o professor Marcos Anibal Cunha, que é engenheiro mecatrônico e um dos mediadores do projeto.
O projeto exigiu dos estudantes pesquisa em programação e, a partir da mentoria oferecida pelo Solve for Tomorrow, também fizeram uma entrevista com o técnico de enfermagem da escola, que ajudou com dicas práticas e reforçou a importância do “Pharmakos” para ajudar a reduzir erros de medicação.

O que eu vejo nos estudantes é que eles acham que não são capazes. Temos que trabalhar o incentivo, precisamos mostrar a eles que é possível sonhar alto, mas com o pé no chão, destaca Marcos Anibal Cunha.
Como funciona o dispensador inteligente de medicamentos
O protótipo é composto por uma parte mecânica que armazena e movimenta os comprimidos; uma parte eletrônica, que faz com que o mecanismo se movimente de acordo com os comandos; e uma parte de programação, que permite estabelecer horários e quantidades para dispensar os remédios. Os alunos já tinham experiência com Arduíno, uma placa de microcontrolador de código aberto, que pode ser programada para controlar dispositivos eletrônicos, como motores e sensores. Mas eles buscavam uma forma de que o sistema pudesse ser acessado remotamente. “Eles tiveram que trabalhar com outro micro controlador que é o ESP32″, acrescenta o educador.
O último dispensador inteligente de medicamentos construído não chegou a ser testado por usuários, mas obteve resultados funcionais nos testes de dispensação de comprimido feitos na própria escola. Com o dispensador automático, foi possível programar a frequência, quantidade de medicamentos, hora e data do início do tratamento. O equipamento também permite configurações diferentes para remédios de uso contínuo ou temporário. Dois medicamentos foram testados para saírem em tempos e doses diferentes, emitindo alertas sonoros sempre que isso acontecesse.
Embora possa ajudar cuidadores e pacientes a gerenciar medicações, os dispensadores possuem custo relativamente elevado. Sem contar a mão-de-obra e o tempo empregado no desenvolvimento do projeto, o custo de cada unidade ficou em torno de R$ 500, referente aos materiais e equipamentos utilizados na máquina.
“Para ganhar escala e estar no mercado, o projeto ainda precisa de uma tecnologia mais refinada, e isso tem um custo. Os estudantes estão bem empolgados, estão falando em patentear, melhorar o sistema, mas eles precisariam de um investimento para prosseguir. Com a visibilidade que o projeto teve na imprensa, uma rede de farmácia já está querendo conversar com a equipe”, relata o educador.
Antes do protótipo ficar pronto, alunos tiveram que fazer a montagem do dispositivo e desenhar a carcaça.
Sucesso do projeto motiva estudantes e professores
Durante o percurso, apesar de estarem focados nos estudos e no vestibular, os estudantes se mantiveram organizados e motivados no projeto. Uma parte importante dessa motivação, segundo o professor, veio da mentoria do Solve for Tomorrow. A metodologia foi a chave para o sucesso do projeto. “É algo que os estudantes vão sempre levar com eles. “Um exemplo foi o hábito de fazer os registros do projeto ao longo de toda a trilha de projetos STEM. Muitas vezes recorremos a essas anotações para saber o que já tinha sido feito e onde faltava mexer. Isso despertou o trabalho em equipe e a divisão de tarefas. Quando se atribui responsabilidades, o projeto anda melhor”, analisa.Cunha também destaca a importância do programa no envolvimento da comunidade escolar. A direção, outros professores e estudantes contribuíram com sugestões, tradução dos vídeos do projeto em libras e engajamento na votação do júri popular. O auxiliar docente da escola, Abraão Lacerda, também prestou um apoio importante no diálogo com os estudantes. “Depois que os estudantes passaram entre os semifinalistas do Solve for Tomorrow, a alegria deles era inexplicável. Um deles até falou durante a mentoria que já estava se sentindo cientista. Então, acho que foi trabalhoso, mas foi muito bom para eles. E para nós, professores, também foi excelente”, conta.