O lixo é um problema global, mas afeta diferentes comunidades de maneiras diferentes. Quando não há uma gestão adequada dos resíduos nos contêineres públicos, esse resíduo transborda e se torna um problema de saúde pública. Uma equipe de estudantes de Tegucigalpa, Honduras, fez a seguinte pergunta: como a tecnologia pode contribuir para a gestão de resíduos tanto no âmbito doméstico quanto nas ruas, e como esse protótipo pode servir para os desafios de seu território e também de outros países, tornando-se uma ideia exportável?
Uma lixeira inteligente, capaz de se comunicar com o usuário para indicar quando está cheio e otimizar a rota de coleta de resíduos, foi o projeto vencedor do Solve for Tomorrow Honduras 2024 – Região da América Central e Caribe. O projeto “Sistema inteligente de gestão de resíduos (SIGR)” consiste em um conjunto de sensores que, ao serem acoplados a uma lixeira doméstica ou a um contêiner, envia uma notificação para um aplicativo quando chega o momento da coleta.
Uma equipe de professores de informática convidou os alunos do último ano do bacharelado em informática do Instituto Gubernamental Espanha Jesús Milla Selva para desenvolver projetos que transformam a realidade local. Um dos jovens observou que a gestão de resíduos é um problema em Honduras, e propôs à equipe usar a robótica como eixo do desafio.
Esta foi a segunda vez que o professor mediador Luis Orlando Irias Galeano participou da iniciativa “Solve for Tomorrow”. Para ele, o que fez a diferença para chegar à final não foi apenas a ideia original dos alunos, mas também sua capacidade de estabelecer parcerias que impulsionaram o desenvolvimento do projeto.
Grandes ideias, protótipo possível
O processo de ideação começou de forma ambiciosa: os estudantes queriam criar um sistema comunitário de gestão de resíduos. No entanto, durante a fase de pesquisa, e considerando o tempo disponível para o desenvolvimento do projeto, eles entenderam que o mais viável era ajustar o escopo e trabalhar em um protótipo que reproduzia as condições da via pública, usando o lixo gerado na escola.
Graças ao seu conhecimento em informática, a equipe optou por trabalhar com sensores que poderiam cumprir duas funções: identificar a quantidade de lixo e enviar um sinal, via Bluetooth, para uma aplicação móvel. “Usamos sensores de proximidade, um módulo Bluetooth, uma placa Arduino e um aplicativo gratuito para celular”, lembra Galeano ao enumerar os materiais utilizados.
A lixeira selecionada para o desenvolvimento do protótipo – que finalmente se tornou a versão final – tinha tampa. Assim, o sensor de proximidade foi colocado perto dela, o que permitiu detectar a quantidade de resíduos de acordo com os milímetros de abertura. “Enchemos o lixo com camisas e outros materiais disponíveis para que, ao abaixar a tampa, o sistema determinasse que estava cheio; depois retiramos o conteúdo para que indicasse que estava vazio”, explica o professor.
A etapa de robótica, ou seja, a colocação em funcionamento dos sensores, não estava isenta de frustrações. Os primeiros sensores usados não respondiam corretamente, o que levou a equipe a pensar que estavam danificados, especialmente porque não eram econômicos. Foi necessário solicitar suporte a um professor externo, que identificou que o problema não estava nos sensores, mas na aplicação, que não funcionava adequadamente em uma versão mais recente do Android. Usando um telefone com uma versão anterior do sistema operacional, eles conseguiram fazer o protótipo funcionar e puderam realizar os testes de medição.
Por isso, o professor destaca a importância de estabelecer alianças para fortalecer o projeto: “É necessário buscar apoios, porque não somos donos do conhecimento; na verdade, sabemos muito menos do que acreditamos. Nem todas as ideias dos alunos pertencem à nossa área e nem sempre temos a experiência necessária. Nos estágios finais, quando um protótipo tem que ser construído e apresentado, é muito valioso para os jovens ouvir pessoas de fora. Quando interagem com especialistas e outros profissionais, sentem que fazem parte de algo diferente e se mantêm motivados”.
Uma final que provou que era possível
Embora a equipe não tenha conseguido desenvolver um sistema completo para a gestão de resíduos na via pública, o protótipo final foi premiado por demonstrar o potencial da ideia e o compromisso dos alunos com a iniciativa. Para Galeano, o principal aprendizado foi os jovens compreenderem que poderiam ganhar uma competição usando seus próprios conhecimentos e recursos.
“Eu acho que o aprendizado mais significativo foi que eles perceberam que poderiam ir longe. No início, eles não acreditavam nisso; eu podia ver em seus rostos que eles pensavam que não era possível. Então, eles foram conhecendo equipes de outros países que também ganharam, assim como eles. Era um grupo médio de estudantes, em uma fase normal da adolescência, alguns mesmo perto da fronteira entre aprovação ou reprovação. Perceber que poderiam fazer coisas importantes foi o que mais os impulsionou”, relata o professor.
Uma equipe de professores comprometidos e voluntários fez uma diferença decisiva no desenvolvimento do projeto. Por isso, para o professor, é fundamental que não trabalhe de forma isolada e que a escola promova espaços de colaboração entre professores para apoiar os alunos no desenvolvimento de projetos STEM. Hoje, os jovens continuam seu caminho para a universidade, muitos deles em áreas ligadas à tecnologia, e os professores estão confiantes de que só através de uma cultura de comunidade escolar é possível gerar soluções inovadoras.