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#Meioambiente

Trio de estudantes argentinos desenvolvem estratégia de descontaminação de bitucas de cigarro

Por meio do Design Thinking, professor orientou grupo a uma solução inovadora para reaproveitar celulose do cigarro e despoluir o ambiente

Professor(a)

Foto de Agustín Pascua
Agustín Pascua

Escolas

Escola Nacional Adolfo Pérez Esquivel (ENAPE)
Olavarría, Argentina

Nome do projeto

Collisafe

Áreas STEM

Ciências

Reaproveitar bitucas de cigarro, recuperando integralmente e eliminando todos os químicos e toxinas da celulose utilizada por meio de fungos. Essa foi a solução projetada e alcançada por um trio de jovens, estudantes do último ano da etapa secundária na Escola Nacional Adolfo Pérez Esquivel, de Olavarría, na Argentina. 

A proposta surgiu na disciplina de Empreendedorismo, ministrada pelo professor Agustín Pascua. Propondo maior dinamismo para a aula, que tem por estrutura ser um espaço de inovação pedagógica e aprendizagem na prática, o docente encontrou no Samsung Solve for Tomorrow um caminho para apoiar os jovens na implementação de projetos de interesse da juventude. “Não é um concurso. É um programa que convoca os professores a uma mudança de perspectiva pedagógica”, afirma. 

Como estratégia inicial, o professor apresentou a Trilha de Projetos disponibilizada pelo programa a sua turma de 20 estudantes, convocando-os a se organizarem em grupos por aptidões e habilidades. Ele dedicou então duas aulas trabalhando com a turma os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, apoiando-os a listar possíveis desafios sociais com os quais gostariam de trabalhar. Das rodadas de chuva de ideias surgiram os mais variados problemas, que impactaram tanto a escola quanto a comunidade. “Entre eles, identificamos que o gramado ao redor da escola – que é enorme e lindo – estava marrom. Marrom de bitucas de cigarro, jogadas e espalhadas por todo o canto”, narra o professor, lembrando que a Argentina é um país em que há grande consumo de cigarros. 

O trio formado por Ander Arguiñena, Daniel Góngora Banegas e Luna Morena Ruiz Díaz decidiu assumir a questão, mas ainda sem ideia de como resolver o problema. Para orientá-los, seguindo a proposta pedagógica de sua disciplina, o professor convidou-os a elaborar um Lean Canvas, metodologia para desenvolver modelos de negócios, focado em três eixos: público, problema e solução. Como desafio, eles tinham que resumir o problema e a solução em 300 caracteres cada, aprendendo a responder com objetividade aquilo que gostariam de testar. Após grande investigação, os jovens compreenderam que gostariam de reciclar ou reaproveitar as bitucas de cigarro de alguma forma, atuando diretamente na despoluição ambiental. 

Com o problema em mãos, começaram a buscar a solução e, segundo o professor, esse foi, sem dúvidas, o processo mais difícil. “De início, só encontrávamos propostas muito custosas ou que geravam novos problemas ambientais, com a utilização de químicos nocivos ao ambiente e à saúde humana”, explica. Foi então que o grupo encontrou a tese de biologia do Dr. Leopoldo Benítez González, defendida na Universidade Autônoma do México. “Nós encontramos o trabalho, entramos em contato com ele via LinkedIn, e ele prontamente nos respondeu, nos explicando melhor o trabalho”, comemora o professor.

Na sequência, como a escola está integrada à universidade, o próximo passo foi buscar a colaboração de pesquisadores locais. Com a colaboração do Dr. Gaston Barreto, do Departamento de Engenharia Química da UNICEN e de sua equipe, o grupo iniciou as primeiras provas de descontaminação de bitucas com o fungo Pleurotus ostreatus, popularmente conhecido como cogumelo-ostra. Com as bitucas vedadas em um recipiente contendo o fungo, em apenas 25 dias no escuro, as substâncias tóxicas eram degradadas. 

Orientados pela equipe do laboratório, os estudantes fizeram um conjunto de provas iniciais, seguindo método científico, incluindo amostras de controle. Com o experimento reproduzido e com resultados confirmados, os estudantes então deram início ao protótipo, que ia além do experimento em si. Nosso protótipo consistia em três etapas – coleta, processo químico e produto terminado -, pensando, desde o início, na escalabilidade do projeto. 

Inovações

Utilizando a ferramenta metodológica do Diagrama de Ishikawa (espinha de peixe), que ajuda a identificar causas de problemas, e realizando uma análise FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas, Ameaças), o grupo desenhou as múltiplas etapas da estratégia. “Com as ferramentas, eles materializaram o projeto como um todo, identificando todos os pontos da cadeia produtiva”, explica Agustín, lembrando que nessa etapa, os jovens também desenvolveram a marca, o logo e as mensagens-chave da iniciativa. 

Para a coleta, criaram bituqueiros feitos de cano de PVC, que foram fixados no campus da escola e universidade. O maior, com 1,5m, com capacidade de armazenagem de 100.700 bitucas e os menores, que foram dispostos nos pátios, com capacidade de 2.700. Neles, indicava-se a mensagem do projeto e a marca ColliSafe. “Para incentivar a coleta individual, criamos a ideia de embaixadores, que nada mais são que entusiastas da iniciativa que concordam em receber em suas casas bitucas armazenadas por outras pessoas e recebem prêmios em material reciclado”, explica. 

O docente indica que, em sua disciplina, os grupos discutiram estratégias de gamificação e de marketing de guerrilha, vivenciando os conteúdos de forma prática em seus projetos. “O bituqueiro foi pensado como um cigarro gigante, comunicando a mensagem de forma visual. Outra estratégia gamificada foi um dia de mobilização com um jogo por equipes na comunidade escolar para ver quem coletava mais bitucas. ”, explica. 

Como processo final da tríade do protótipo, está o reaproveitamento do acetato de celulose e do fungo que consumiu as substâncias tóxicas. O acetato, segundo o grupo, pode ser vendido a 5 dólares por Kg e utilizado na fabricação de papel. “1000 kg de acetato de celulose equivalem a 14 árvores”, complementa. Ademais, as raízes do fungo podem ser trituradas e utilizadas como fertilizante.  

Comunicando ideias

Com o protótipo desenvolvido, testado e sistematizado, o grupo precisou avançar na sua comunicação. Por ser um processo de múltiplas etapas, com diferentes tipos de impacto – social, ambiental e econômico -, era preciso investir em pitches estruturados e bem treinados. Para tanto, a equipe contou com o apoio de uma produtora de vídeo que existe na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade. “Eles tiveram uma oficina sobre como montar o roteiro e a equipe da faculdade filmou”, indica Agustín, reiterando a importância dos parceiros que se envolveram com a ideia. 

A fim de comunicar melhor a mensagem, o professor ainda trabalhou com estratégias de Programação Neurolinguística (PNL), discutindo com os jovens estratégias para fazer uso de estímulos sinestésicos na construção da mensagem. Outra estratégia foram as técnicas de comunicação não-verbal (CNV), adequando gestos, posturas e entonação vocal. “Parece loucura, mas nós trabalhamos tudo isso! E tudo foi feito de forma integrada à sala de aula”, comenta o professor. Embora ele tenha feito muitos encontros fora da sala de aula com o grupo, todos os conteúdos foram trabalhados de forma programática. 

“É importante dizer que ensinar desse jeito é muito mais prazeroso, para eles e para nós, como docentes”, argumenta Agustín, defendendo que o conjunto de habilidades socioemocionais que os estudantes desenvolvem são conquista fundamental do processo de ensino e aprendizagem. “Eles certamente serão cidadãos mais ativos, capazes de ouvir o outro, trabalhar em grupo, acreditar no potencial que têm”, conclui. 

Foco na prática!

Veja as orientações do professor sobre como apoiar os estudantes no desenvolvimento de uma estratégia para reciclagem de bitucas de cigarro.

Empatia

Agustín fez uso de uma série de ferramentas, incluindo técnicas de formação de grupo, encorajando-os a montar equipes com habilidades distintas. Para identificação inicial do problema, o professor recomenda chuvas de ideias livres, com amplo espaço de escuta de todas as possibilidades.

Definição

Para organizar as ideias iniciais, o docente recomenda a utilização de metodologias de análise de problemas, que ajudem a identificar as várias questões que compõem um determinado desafio.

Ideação

Entre as várias atividades que apoiaram a ideação, Agustín sugere a construção de um diagrama de Gantt, para organizar as etapas e responsáveis pelas diferentes ações do projeto.

Protótipo

O professor ressalta a importância de compreender o protótipo não apenas como o dispositivo desenvolvido e sim como o conjunto de estratégias high e low tech, incluindo as de comunicação e mobilização da comunidade.

Teste

Para a organização da devolutiva, além das várias estratégias de PNL e CNV, ele propõe que os jovens utilizem a metodologia do Círculo Dourado da Comunicação, que começa a defesa do projeto a partir do “por quê”. Ele recomenda também que os jovens vivenciem apresentações de outros grupos, aprendendo com seus pares e colegas.